Durante a transmissão do desfile da Paraíso do Tuituti, a Rede Globo tentou dizer que o enredo falava sobre o passado, e não sobre o presente, como era a intenção clara da escola. Nas alas do trabalho escravo contemporâneo, do trabalho informal, do cativeiro social, dos manifestoches, da carteira do trabalho como escudo dos ataques e da reforma trabalhista, fez-se um silêncio ensurdecedor. No entanto, talvez por sua espontaneidade, um único comentário escapulido refletiu todo o enredo de forma perfeita. O comentarista Pretinho da Serrinha afirmou, ao ver uma carteira de trabalho, que tinha uma daquelas em casa, em uma gaveta, “limpinha”. O sambista, que leva a negritude no próprio nome, nunca teve sua carteira de trabalho assinada. Pretinho tem 39 anos de idade e nunca teve acesso à via principal de fruição de direitos de cidadania. Sua carteira, talvez tirada por ele com esperança, está aguardando até hoje um registro. Muito provavelmente Pretinho nunca poderá se aposentar, da mesma forma como hoje não tem o direito de adoecer. Pretinho tem que trabalhar, senão não come. Pretinho não tem férias, Pretinho não tem 13o. Salário. Pretinho não tem jornada de trabalho, Pretinho não tem direito a descanso semanal remunerado. Ou seja: Pretinho não tem direito a ter direitos. Pretinho representa os tantos outros Pretinhos do Brasil: todos os que não foram incluídos e todos os que serão excluídos pelas reformas desumanas pelas quais estamos passando. A vida de todos os Pretinhos, até os mais clarinhos, foi o que a Paraíso do Tuiuti tão bem retratou. Por isso foi o desfile com maior repercussão. A inspiração que vem do samba deve ser para luta pela real libertação com dignidade de todos os Pretinhos do Brasil. Que ouçamos o grito de carnaval vindo do Tuiuti e tenhamos coragem de apontar o apartheid social que vivenciamos e que está a ponto de explodir. Que tenhamos a audácia de apontar para a concentração cada vez maior da riqueza e da contínua e plurissecular exploração de 99% da população. Um dia a Casa Grande cai, ela acordando ou não.