Em 2007 os irmãos Coen levaram para as telas um drama/suspense com um inesquecível assassino psicótico, sem nenhum senso de humor ou piedade.

A arrebatadora atuação do espanhol Javier Bardem deu ao clássico Onde os fracos não têm vez 4 estatuetas do Óscar, dentre eles a de melhor filme.

A frase repetida pelo matador ao longo do filme (“Call it, friendo” – escolha, amigo) recebeu o prêmio HollyWordie, por ter sido a fala de filme que mais influenciou a cultura americana daquele ano. O Presidente da Global Language Monitor, instituição responsável pela análise das tendências de linguagem, considerou que a frase teve impacto “selvagem” na sociedade americana.

A perversidade da frase consistia em fazer a vítima escolher: cara ou coroa. O resultado negativo determinaria a morte do infeliz “azarado” que cruzou o caminho do obstinado matador

A crueldade das escolhas pode ser transposta para os cenários possíveis a partir do Projeto de Reforma Trabalhista neste sombrio início de 2017.

A defesa da autonomia da vontade coletiva – negociado sendo usado para rebaixar o padrão mínimo de proteção aos trabalhadores previsto na Lei – ignora a fragilidade e/ou a falta de legitimidade do sistema sindical. Os que efetivamente conhecem a realidade das negociações sabem que raramente os trabalhadores e seus sindicatos têm forças para resistir e ampliar direitos nos acordos.

Quando têm, a mídia e o Estado, com o peso de sua força repressiva, são usados para dissolver e deslegitimar os movimentos de “baderneiros”.

Apesar de mais de uma centena de alterações em dispositivos da CLT, sempre piorando a situação dos trabalhadores, a “Reforma” não toca na questão vital do aperfeiçoamento da organização e das possibilidades da efetiva atuação sindical. Quando o faz, é para deixar o sistema sindical pior do que já está.

A premissa para que se cogite a prevalência do negociado sobre o legislado seria o fortalecimento das entidades sindicais.Somente a legitimidade, com instrumentos para a atuação sem receios outros que não os de um regular movimento sindical, permitiria a ousadia de se avançar em propostas como as que estão sendo impostas a “toque de caixa”.

Ao contrário disso, a mera retirada do imposto sindical compromete o que resta de possibilidades de resistência dos trabalhadores e do movimento sindical. Os sindicatos, de reduzida legitimidade, também serão asfixiados, sem recursos. Golpe de mestre! Na feliz síntese do colega Cássio Casagrande, as entidades sindicais, ao invés de “cartórios ricos”, serão transformadas em “cartórios pobres”.

Nessas circunstâncias, em tempos de avassalador desemprego e temendo engrossar as estatísticas dos desafortunados, negociar o quê?

Os trabalhadores, ainda que não tenham pela frente um vilão com uma franjinha esquisita que busca uma mala de dinheiro, e mesmo que não haja uma escopeta e um enorme silenciador, terão que liberdade de escolha?

Escolha, colaborador, mesmo sabendo que é indiferente o lado da moeda.

Leomar Daroncho é Procurador do Trabalho