Quando explodiu a crise, a palavra “colaborador” já andava na boca de muito empreendedor, mas com a aceleração da degradação do trabalho, deu-se o “boom”

O plano é evidente: desmantelar o campo do trabalho organizado, da organização dentro dos locais do trabalho, desenraizar as pessoas do trabalho que fazem, individualizá-las, desestruturar a sua vida pessoal, obrigá-las a estar sempre disponíveis para trabalhar, pagar-lhes (se não se puder evitá-lo) quando calha e à peça, tudo o que for preciso para que o salário vá para o fundo, para que o bico fique calado, para que o medo, o ódio e a chantagem sejam as principais relações num trabalho. E para que o plano ocorra com o mínimo de percalços possível, que coisa melhor do que um pouco de psicologia inversa?

 

Se querem mudar o trabalho, a primeira coisa a fazer é mudar o nome do principal agente no trabalho que é, como o próprio nome sugere, o trabalhador. Para a coisa parecer benéfica, o trabalhador passa a ser colaborador. Parece bem. Estamos a trabalhar para outrem, dando-lhe a ganhar lucro por uma fatia reduzida desse mesmo lucro, a que chamamos salário. Mas se em vez de dizer que estamos a trabalhar, dissermos que estamos a colaborar, parece que estamos a outro nível, que estamos mais alto, em parceria, distribuindo tarefas para um mesmo objectivo final. Quase que nos podiam chamar “sócios”. É esperar algum tempo. Claro que não é de esperar um aumento de salário com a transição de trabalhador para colaborador. Às vezes até é bem ao contrário. Somos promovidos no nome e despromovidos na remuneração. O caso dos colaboradores prestadores de serviço mostra como a distância linguística entre a aparente independência laboral e a dependência económica não poderia ser mais evidente.

 

Começa nas faculdades, principalmente de Economia e Gestão. A primeira transição mercantilizou linguisticamente os trabalhadores, renomeando-os de “recursos humanos”. Recurso é para explorar, sempre. Mais claro não podia ser. Mas dos recursos humanos para os colaboradores, adoça-se a boca e até parece uma promoção. Só que enquanto o nome promovia o trabalhador, as condições de trabalho degradavam-se através da precarização que, tão chique, se chamava de flexi (tão sexy) e segurança. Enquanto aumentava o investimento em melhoria dos estudos em Economia, Gestão de Empresas, “Recursos” “Humanos”, os recém-formados gurus da organização daqueles antigos trabalhadores, transformavam as pessoas cada vez mais em recursos, e cada vez menos em humanos. Já eram até “capital humano”.

 

Quando explodiu a crise, a palavra “colaborador” já andava na boca de muito empreendedor, mas com a aceleração da degradação do trabalho, deu-se o “boom”. É que quanto piores são as condições de vida das pessoas, maiores têm de ser as mentiras para mantê-las silenciosas. E é por isso que hoje nos é solicitado, em vez de trabalharmos, que colaboremos. Parece muito menos coercivo e exploratório e até podemos de vez em quando enganar-nos quando vamos trabalhar, achando que temos uma posição que não é aquela da pessoa que faz mais e recebe menos. Como o Orwell ilustrou tão bem no “1984”, as palavras importam. E tal como pedir desculpa não é demitir-se, colaborador não é trabalhador. É pior. É nem reconhecer por inteiro o nosso trabalho que faz as coisas funcionar. Por isso, da próxima vez que o teu patrão, que te paga 500 ou 600 euros por mês para trabalhar numa empresa que dá lucro, se dirigir a si falando da “nossa colaboradora”, diz, nem que seja para ti própria: “Colaboradora é a tua tia!” — vais ver que te sentes logo menos colaboracionista.

 

Artigo publicado originalmente em http://p3.publico.pt/actualidade/economia/13867/colaboradora-e-tua-tia