Belchior: luto e luta

                Grijalbo Coutinho            

 Os tempos difíceis nos arrebentam. Os nossos cumprimentos formais que afirmam  estar tudo bem ao  encontramos amigos e conhecidos é sempre precedido de inúmeras ressalvas. Afinal, como  verdadeiramente declarar tranquilidade em uma época de  contrarrevolução política em curso promovida pela classe dominante para tornar os ricos cada vez mais opulentos e os pobres  dessa sociedade rasgadamente desigual ainda mais miseráveis?  Ninguém vai calar  o grito de que
                             “ando mesmo descontente
          Desesperadamente eu grito em português
                         Mas ando mesmo descontente
            Desesperadamente eu grito em português
“.
2016 foi o ano um do  golpe, quando tudo ficou mais claro sobre os naturais ímpetos  dessa gente ávida pela insaciável acumulação de riquezas. Estamos em 2017.  Não podem continuar nos matando. 2016 precisa acabar, pois
                                                                   
“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro
“.
A  classe dominante, por intermédio de seus prepostos e capatazes alojados nos três poderes e em  outras instituições da República,  sob o falso e tendencioso  discurso moralista de conserto da corrupta engrenagem do sistema capitalista, especialmente na relação entre o público e o privado,  usa e abusa de truques midiáticos para proteger corruptos  golpistas e aniquilar conquistas históricas da classe trabalhadora brasileira.
   Para tanto, vale tudo, incluindo o direito penal do inimigo e as presunções ou ilações contra os adversários, permanentes ou momentâneos,  da “casta pura”  protegida pela velha mídia amiga e sustentáculo de longa data da ditadura civil-militar de 1964-1985.
A história, contudo,  não termina hoje. A história há de condenar os puritanos burgueses,  clássicos falsos moralistas lacerdistas os  quais não resistiriam  a quaisquer investigações  com  métodos ou  premissas semelhantes àquelas  por eles utilizadas contra os seus inimigos. Na verdade, apenas como figura de linguagem e não como ato de violência,
                                                                     “eu quero é que esse canto torto
                                          Feito faca, corte a carne de vocês
                                           E eu quero é que esse canto torto
                                          Feito faca, corte a carne de vocês”
.
    Realmente, são tempos de depressão política para quem guarda qualquer sentimento humanista  ou  humanitário, de golpes escancarados voltados para liquidar os direitos dos trabalhadores , aposentados, desempregados,  servidores públicos, índios, negros, mulheres de luta e de tantos outras minorias políticas, bem como para  entregar as riquezas nacionais.
Por outro lado, começa a despertar a consciência coletiva no sentido  de que a tragédia brasileira iniciada em 2016 tem os seus reais propósitos cada vez mais  evidentes. E isso posso concluir porque tenho
                         “Conversado com pessoas
                          Caminhado meu caminho
                          Papo, som, dentro da noite
                         E não tenho um amigo sequer
                         Que ainda acredite nisso não
                                        Tudo muda!
                              E com toda razão”
.
      Além disso,
                             ” Você não sente nem vê
                              Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
                            Que uma nova mudança em breve vai acontecer
                                 E o que há algum tempo era novo jovem
                                      Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer
“.
   Não virá, contudo, a  legítima reação   sem destemor e sem contundente enfrentamento à antiutopia em curso no Brasil. É fundamental lutar, considerando que
                                                    “O que transforma o velho no novo
                       bendito fruto do povo será.
             E a única forma que pode ser norma
                        é nenhuma regra ter;
       é nunca fazer nada que o mestre mandar.
                          Sempre desobedecer.
                              Nunca reverenciar”
.
  Como se a depressão política  pudesse não ter fim, depois dos desatinos dos últimos meses, responsáveis pela tentativa de dilaceramento dos direitos humanos da imensa maioria do povo brasileiro, com o apoio ou omissão daqueles para os quais o Estado Democrático de Direito somente vale para o capital, nos chega hoje a notícia do falecimento ocorrido ontem, dia 29 de abril de 2017,  de irrequieto poeta e  destacado músico da MPB, do filósofo cearense  Belchior, tragado pelos efeitos do modo de vida  da sociedade burguesa em sua fase  ainda mais individualista, consumista,  de reduzida solidariedade humana ou  de pouca sociabilidade, da descartabilidade humana, da valorização  do fútil e do inútil  e da sacralização do mundo “do ter” e das aparências globalizadas .
   Belchior,  mais  talentoso cantor cearense de todos os tempos e um dos maiores do Brasil,  uma espécie  de filósofo  nietzschiano da música popular brasileira, porque nos deixastes tão cedo ou porque desaparecestes do cenário  há quase uma década?  Havia prometido  que irias ao teu primeiro show em qualquer lugar do mundo, quando desse um  chega para lá nessa maldita depressão.
Por isso, hoje, dia 30 de abril de 2016,  deprimido politicamente, chorei ainda mais ouvindo as tuas lindas canções. Choro a tua morte precoce, bem como assim chora  o meu filho que é aprendiz de  músico,  que tem 23 anos de idade, admirador de sua qualidade musical desde criança. 
         Nesse momento de dor de  uma  comunidade  valorizadora da  música como instrumento da  arte de rebeldia das minorias políticas,  especialmente por parte  dos  jovens cearenses de outrora que protestaram, enfrentaram a ditadura, namoraram  e amaram ouvindo e cantando  Belchior,  nos anos 1970 e 1980,  somente nos resta agora  ouvir ainda mais o filósofo de Sobral, lutar  contra o golpe e pelo restabelecimento do Estado Democrático de Direito, fazendo uso de seus versos, tal como  consta das estrofes antes destacadas e do término da presente mensagem,  texto para além de piegas, senão expressão  de sentimento verdadeiro do autor de melancólica homenagem  quando um de seus ídolos musicais se vai :
Não cante vitória muito cedo, não.
Nem leve flores para a cova do inimigo,
que as lágrimas do jovem
são fortes como um segredo:
podem fazer renascer um mal antigo
“.
        É hora do luto por Belchior. É hora de luta contra o golpe e os golpistas!