Os tíbios gostam da conciliação. Oscilantes e maneirosos, sua pragmática política os aproxima da convivência com pessoas em que viceja a leniência. Alcunhas, bedéis, mulas e outros tantos (pouco) bacharéis são parceiros constantes.

Os sibilinos, quando magnatas das finanças, capitães de indústrias ou senhores do agronegócio, sonham com o mundo da produção onde os assalariados têm que se exaurir para se reproduzir. Beneficiam-se tanto dos impostos que são cobrados quanto dos que são isentados. Um duplo ganho estranho.

Os tíbios frequentam o pântano e se encantam quando conhecem grandes líderes, aqueles que sonham conciliar os deuses e os diabos na terra do sal. Pendulam e avançam pelas sombras. São concordes e raramente discordes. A alma e a verve não lhes frequentam.

Os sibilinos, nas épocas de bonança, curvam-se também aos encantos dos grandes líderes. Com os tíbios, apressam-se em formar a “base de apoio” dos governos “acima das classes”, para além do bem e do mal.

Por vezes abandonam o comando direto de suas propriedades e tornam-se candidatos por partidos de centro, de direita, trabalhistas e até “socialistas”. A desfaçatez se torna geral. Tal qual um lampedusa fabril, financial ou agropastoril, tudo vale para nada mudar e muito lucrar.

Quando vem a crise, os tíbios e os sibilinos se aguçam e confabulam. Os primeiros surfam pelas bordas e bordam pelas margens. Juntos, eles maquinam muito, impulsionados por inúmeros outros que antes faziam parte da corte eclética que bajulava os grandes líderes.

Os sibilinos vivem na dubiedade entre saques sociais e estatais, estes últimos oriundos de tantas benesses de um Estado tão generoso para os de cima. Nem mais um imposto, desde que os seus impostos se mantenham para garantir o circo, sempre às custas do labor alheio.

Em nosso zoológico político, além do ornitorrinco criado pelo grande Chico de Oliveira, é emblemática a figura do pato. Talvez seja um caso raro de pathos sibilinus.

Tíbios e sibilinos participam de indizíveis negociações, respaldados pelo atoleiro parlamentar, descompasso institucional e crise judicial onde o Supremo se apequena. Tudo impulsionado pelas irritações das chamadas “classes proprietárias” e das camadas médias conservadoras que ficam muito amedrontadas, além de uma mídia desmedida.

Assim, chega-se ao topo do poder sem eleição, com governos “terceirizados”, eivados de ilegitimidades e catapultados para efetivar a demolição social.

Com mãos de tesoura, lépidas e pululantes, os tíbios são sempre destros, afiados em seu lado direito. Destruir a Previdência pública, derrogar a CLT, desmilinguir ainda mais a educação e a saúde dos pobres, cortar o pecúlio dos velhinhos -esses são seus hobbies prediletos.

Já os sibilinos são ambidestros. Querem sempre a redução dos impostos para as finanças, a indústria e o agronegócio e vivem a exigir concessões do Estado todo privatizado. E militam diuturnamente pelo desmonte cabal de todo direito social.

Os tíbios gostam de pedir dinheiro para os sibilinos ricos, em suas campanhas eleitorais. Assim, muitos burlam e todos ganham. Agora agem abertamente para estancar de vez a ação judicial. Findo o Carnaval, está em curso a Operação Tibilinos.

RICARDO ANTUNES é  professor titular de sociologia do trabalho na Unicamp. Escreveu, entre outros, o livro “Os Sentidos do Trabalho” (ed. Boitempo)