JOGO DO BICHO, O TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO E O PATO

Rodrigo de Lacerda Carelli*

Em recente decisão (RR-731/2002-906-06-00.4), o Tribunal Superior do Trabalho manifestou-se no sentido de manter a sua jurisprudência, já de certa forma antiga, no sentido de que os empregados dos organizadores do chamado “Jogo do Bicho” teriam seus contratos nulos, não se admitindo, por consequência, a concessão de nenhum direito a esses trabalhadores. O entendimento, inclusive, já está firmado na Orientação Jurisprudencial nº. 199 do mesmo Tribunal Superior do Trabalho, que assim prevê:

“Jogo do bicho. Contrato de trabalho. Nulidade. Objeto ilícito. Arts. 82 e 145 do código civil. Inserida em 08.11.00”.

Os artigos citados pela Orientação Jurisprudencial, referentes ao Código Civil de
1916, estão revogados pelo novo Código Civil Brasileiro, que entrou em vigor em 2002,
que, entretanto, mantém regra similar no art. 104, que diz:

“Art. 104. A validade do negócio jurídico requer:
I – agente capaz;
II – objeto lícito, possível, determinado ou determinável;
III – forma prescrita ou não defesa em lei.” (grifo nosso)

O art. 166 do mesmo Código afirma, por sua vez:
“Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando:
I – celebrado por pessoa absolutamente incapaz;
II – for ilícito, impossível ou indeterminável o seu objeto;
III – o motivo determinante, comum a ambas as partes, for ilícito;
IV – não revestir a forma prescrita em lei;
V – for preterida alguma solenidade que a lei considere essencial para a sua validade;
VI – tiver por objetivo fraudar lei imperativa;
VII – a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção.”
(grifo nosso)

Entende o Tribunal Superior do Trabalho, assim, com base no inciso II do art.
166, que o negócio jurídico entre o trabalhador e o “bicheiro” não seria válido e
consequentemente nulo, pela ilicitude do objeto do negócio jurídico, ou seja, jogo de
azar sem autorização legal.

No entanto, várias razões levam a crer que o Tribunal Superior do Trabalho (ou,
como veremos, a sua maioria, pois há forte dissidência aberta) encontra-se equivocado
em suas decisões.

Inicialmente, o negócio jurídico celebrado entre o trabalhador e a banca de jogo
do bicho é o contrato de trabalho, cujo objeto (ou seja, o objeto do negócio jurídico) é,
na maioria das vezes, o apontamento do jogo. Ora, qual a diferença entre o trabalhador
que aponta o jogo em uma banca de bicho e aquele que faz a mesma atividade dentro
de uma agência lotérica autorizada pela Caixa Econômica Federal? Justamente este
último ponto: a autorização da empresa estatal. Assim, pelo fato de que seu
empregador não tem autorização para realização de sua atividade econômica, o
trabalhador ficaria sem receber todos os direitos sociais constitucionalmente
assegurados. Isto, pois o art. 58 da Lei de Contravenções Penais afirma ser
contravenção qualquer ato relacionado com a atividade de exploração de jogo do
bicho. Assim, também deve entender o Tribunal Superior do Trabalho que está na
mesma situação aquele trabalhador que realizasse suas tarefas dentro de uma
farmácia que não tivesse autorização para vender drogas, pois é crime segundo o art.
33 da Lei nº. 11.343/2006.

Como é cediço, nas cidades brasileiras o “jogo do bicho” é tolerado pelas
autoridades, existindo bancas próximas a qualquer Tribunal de Justiça, Delegacia de
Polícia ou sede do Ministério Público. Muitas delas exibem até logomarcas, que
identificam o explorador do jogo. Tal jogo, sem entrar no mérito de quão nefasto é para
a sociedade brasileira (e certamente o é), é aceito por essa mesma sociedade, que
realiza seus jogos de azar nestas bancas com frequência. Na Internet, há vários “sites”
com resultados de sorteios e propaganda de entidades contraventoras (Por exemplo: http://www.ojogodobicho.com.br e http://www.paratodos-ba.com.br/jogos1.htm) e do jogo
proibido.

Assim, pelos costumes da sociedade brasileira, o negócio do jogo do bicho é
aceito, trazendo assim a regra do art. 113 do Código Civil Brasileiro:
“Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os
usos do lugar de sua celebração.”
O apontador do jogo do bicho é trabalhador aceito pela sociedade, não sendo
considerado contraventor, sendo, geralmente, pessoa das comunidades que nada têm
a ver com o crime organizado. Os usos e costumes de todas as sociedades brasileiras
demonstram ser tolerado o negócio jurídico, razão pela qual, pela regra do art. 113,
deveria ser considerado válido.

Mesmo se se entendesse que o negócio jurídico é inválido, erra o Tribunal Superior
do Trabalho quando não restitui os trabalhadores ao status quo ante. É regra na
questão da nulidade dos negócios jurídicos, pelo art. 182 do mesmo Código Civil, que:
“Art. 182. Anulado o negócio jurídico, restituir-se-ão as partes ao estado em que
antes dele se achavam, e, não sendo possível restituí-las, serão indenizadas com
o equivalente.”

Ora, ao trabalhador não pode ser restituídas as forças que expendeu na
realização de seu labor diário, devendo, assim, ser recomposto mediante indenização
com o equivalente ao esforço despendido. E o equivalente, em termos de contrato
de trabalho nulo, só pode ser o valor do trabalho, agregado com todos os direitos
trabalhistas previstos na legislação laboral. Por óbvio, pois se entendesse que somente
os salários seriam devidos, a indenização não seria pelo “equivalente”, e sim pelo
“quase o equivalente”.

Essa punição ao trabalhador pela falta de autorização estatal dada ao seu
empregador também acarreta outras ilegalidades, como o enriquecimento sem causa
obtido pelo explorador de jogo de bicho. De fato, enquanto o empregador de uma
agência lotérica, por sua atividade ser considerada lícita, tem que pagar todos os
direitos e encargos trabalhistas, aquele que explora de forma ilegal tem essa benesse e
vantagem: não precisa pagar ou respeitar direito algum! É um claro incentivo à
ilegalidade.

Outro ponto que tem passado despercebido pelos julgadores: é princípio do
direito, oriundo do princípio maior da Boa Fé, que a ninguém é permitido alegar em seu
proveito a própria torpeza. Assim, seria inadmissível a defesa dos empregadores,
donos de bancas do jogo de bicho, alegarem a sua própria ilicitude, não gerando
efeitos processuais. Assim, ao alegar a própria torpeza em um processo judicial, o Juiz
não poderia dar efeitos jurídicos à alegação da torpeza, julgando a partir das provas
nos autos.

Por analogia, a melhor regra de aplicação é aquela do art. 118 do Código
Tributário Nacional que impõe que haverá a necessidade de pagamento de tributo
abstraindo-se “da validade jurídica dos atos efetivamente praticados pelos
contribuintes, responsáveis, ou terceiros, bem como da natureza do seu objeto ou dos
seus efeitos”. Assim, no Direito Tributário, o que também pode ser utilizado para efeito do
INSS e FGTS, não importa a ilegalidade do negócio jurídico, sendo devidos.

Desta forma, de qualquer ângulo que se vê, para a garantia dos direitos sociais,
fundamentais segundo nossa Constituição Federal, a melhor solução para o caso é a
garantia dos direitos dos trabalhadores empregados da exploração do jogo do bicho,
ou, ao menos, a indenização pelo equivalente dos direitos sonegados, pela
impossibilidade de retorno ao estado que as partes se encontravam originalmente. Não
se estará incentivando o trabalho ilícito, mas sim restituindo ao trabalhador, via
indenizatória, aquilo que ele tem de mais precioso: o valor de seu trabalho. E a Justiça
do Trabalho deveria cumprir seu papel de Estado e, cada vez que houvesse uma
confissão de cometimento da contravenção penal, que requisitasse a instauração de
inquérito policial para a punição dos contraventores. Ao não fazer isso, comete uma
incoerência, punindo o trabalhador e deixando livre o empregador contraventor.

Prevalecente o argumento da Orientação Jurisprudencial nº. 199, poderão vir
agora os proprietários de bingo, afirmando sua ilegalidade, também querer que a
Justiça do Trabalho condene os trabalhadores a não ter direitos por sua própria
torpeza, prejudicando milhares de pessoas inocentes.

A questão parece estar se modificando no Tribunal Superior do Trabalho. Em
dezembro de 2006 houve proposta de cancelamento da Orientação Jurisprudencial nº.
199, sendo que diversos ministros entenderam que a orientação era demasiadamente
simplista. O então corregedor-geral da Justiça do Trabalho, ministro Luciano de
Castilho chegou a afirmar, corroborando nosso entendimento, que “O dono do banca
paga tributos municipais, estaduais e, certamente, federais. Quando aparece uma
reclamação trabalhista, afirma que não pode pagar os direitos ao trabalhador porque
desenvolve uma atividade ilegal”, classificando a situação de “surrealista”. Já o
ministro Simpliciano Fernandes sustentou que “não se pode permitir o enriquecimento
daquele que se vale de um trabalho que é admitido pela sociedade”.

Os argumentos em contrário, de que no tráfico de drogas também trabalham inocentes, não podem prosperar, eis que a atividade de tráfico de drogas não passa no crivo dos usos e
costumes da sociedade, não sendo atividade aceita e tolerada pelas autoridades.

A situação como está beneficia duplamente o explorador do jogo ilícito, que
mantém suas atividades sem problemas, e ainda se livra de pagar os encargos e
direitos trabalhistas. O único punido é o trabalhador, que paga o pato. Não há pato no
jogo do bicho, a não ser o trabalhador.

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